Os etnoconhecimentos e as práticas de agricultores faxinalenses como fonte para elaboração de cartilhas e mapas etnopedológicos

  • Vanderlei Marinheski Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)

Resumo

A etnopedologia não se caracteriza como uma disciplina, mas como um conjunto de conhecimentos tecnocientíficos e patrimoniais que o agricultor utiliza para classificar e manejar a qualidade de suas terras. No caso específico dos faxinais no estado do Paraná, as paisagens agrícolas dessas comunidades tradicionais trazem as marcas desses saberes historicamente arraigados ao território. A avaliação da qualidade das terras, a partir de indicadores etnopedológicos em faxinais, permite entender quais são os atributos que o agricultor usa para diferenciar solos de baixa, média e alta qualidade produtiva, sendo esse um saber concebido em função das experiências produtivas com a geobiodiversidade da paisagem-território. A principal metodologia utilizada nesta pesquisa foi o diagnóstico participativo com os sujeitos locais, através de questionários semiestruturados; com eles, obteviveram-se os elementos para confecção dos principais produtos deste estudo. Os resultados apontam três classes vernaculares para os dois faxinais estudados: terra branca e terra preta de boa qualidade, e terra seca de baixa qualidade para os cultivos locais. Assim, propor mapas de classificação da qualidade das terras, levando-se em consideração o patrimônio socioecológico dessas comunidades tradicionais, apresenta-se como um desafio quando converge com as diferenças entre os sistemas vernacular e científico de classificação dos solos.

Palavras-chave: paisagem agrícola; saberes tradicionais; metodologia participativa; agroecossistema.

Abstract

Ethnopedology is not portrayed as a discipline, but as a set of technical, scientific, and heritage knowledge that farmers use to classify and manage the qualities of their lands. In the specific case of “faxinais” in the state of Paraná, the agricultural landscapes of these traditional communities bring the marks of this knowledge historically rooted in the territory. The evaluation of land quality, based on ethnopedological indicators in “faxinais”, allows us to understand which are the attributes that the farmer uses to differentiate low, medium, and high-productive quality soils, with this knowledge being conceived according to the productive experiences with the geobiodiversity of the landscape-territory. The main methodology used in this research was the participatory diagnosis with the local subjects, through semi-structured questionnaires; with them, the elements for making the main products of this study were obtained. The results point to three vernacular classes for the two “faxinais” studied: good quality white land and black land, and low-quality dry land for local crops. Thus, proposing maps for classifying land quality, considering the socio-ecological heritage of these traditional communities, presents itself as a challenge when it converges with the differences between the vernacular and scientific systems of soil classification.

Keywords: agricultural landscape; traditional knowledge; participatory methodology; agroecosystem. 

Resumen

La etnología no se caracteriza como una metodología, sino como un conjunto de conocimientos tecnocientíficos y patrimoniales que el agricultor utiliza para clasificar y manejar la calidad de sus tierras. En el caso específico de los “faxinais” en el estado de Paraná, los paisajes agrícolas de esas comunidades tradicionales tienen las marcas de esos saberes históricamente arraigados al territorio. La evaluación de la calidad de las tierras, a partir de indicadores etnopedológicos en “faxinais”, permite entender cuáles son los atributos que el agricultor usa para diferenciar suelos de baja, mediana y alta calidad productiva, pues este es un saber concebido en función de las experiencias productivas con la geobiodiversidad del paisaje-territorio. La principal metodología utilizada en esta investigación fue el diagnóstico participativo con sujetos del lugar, por medio de cuestionarios semiestructurados; con ello, se obtuvieron los elementos para la confección de los dos productos de ese estudio. Los resultados apuntan tres clases tradicionales para los dos “faxinais” estudiados: tierra blanca y tierra negra de buena calidad, y tierra seca de baja calidad para los cultivos locales.  De esa manera, proponer mapas de clasificación de la calidad de las tierras, tomándose en consideración el patrimonio socioecológico de esas comunidades tradicionales, se presenta como un reto cuando converge con las diferencias entre el sistema tradicional y el científico de clasificación de los suelos.

Palabras-clave: paisaje agrícola; saberes tradicionales; metodología participativa; agroecosistema

Biografia do Autor

Vanderlei Marinheski, Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)

Doutorando em Geografia – Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Bolsista/CAPES.

Referências

ALVES, A. G. C.; MARQUES, J. G. W. Etnopedologia: uma nova disciplina? In: VIDAL-TORRADO, P. et al. Tópicos em ciência do solo. Viçosa: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 2005.

ARAÚJO, A. L. et al. Etnopedologia: uma abordagem das etnociências sobre as relações entre as sociedades e os solos. Ciência Rural, Santa Maria, v. 43, n. 5, p. 854-860, 2013.

BARRERA-BASSOLS, N.; ZINCK, J. A. Ethnopedology: A worldwide view on the soil knowledge of local people. Geoderma, [s. l.], v. 111, n. 3, p. 171-195, 2003.

BARRIOS, E.; COUTINHO, H. L. C.; MEDEIROS, C. B. A. InPaC-S: integração participativa de conhecimentos sobre indicadores de qualidade do solo. Guia metodológico. Nairobi: World Agroforestry Centre (ICRAF), Embrapa, CIAT, 2011.

CHANG, M. Y. Sistema Faxinal: uma forma de organização camponesa em desagregação no Centro-Sul do Paraná. Londrina: IAPAR, 1988.

CUNHA, M. S. et al. Ethnopedology in production units at Canto da Ilha de Cima, São Miguel Gostoso-RN, Brasil. Bioscience Journal, Uberlândia – MG, v. 36, n. 1, p. 113-121, jan./fev. 2020.

DREW, D. Processos interativos homem-meio ambiente. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

EMBRAPA. Sistema brasileiro de classificação de solos. 3. ed. Rio de Janeiro: EMBRAPA-SPI, 2013

FERREIRA, P. Estudo sobre os faxinais Lageado de Baixo e Lageado dos Mello – PR: a construção de conhecimentos a partir da ecologia social como subsídio para um projeto de turismo comunitário. 2008. 136 f. Dissertação (Mestrado em Sociedade, Direito e Cidadania) - Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa – PR, 2008.

GEILFUS, F. 80 herramientas para el desarrollo participativo: diagnóstico, planificación, monitoreo, evaluación. Costa Rica: Instituto Interamericano de Cooperación para la Agricultura, 2002.

IAP. Instituto Ambiental do Paraná. Resolução SEMA n° 073, de 03 de dezembro de 2010. Disponível em: http://www.iap.pr.gov.br/pagina-1434.html. Acesso em: 17 out. 2017.

ITCG. Instituto de Terras, Cartografia e Geociências. Solos do Estado do Paraná. 2008. Disponível em: https://www.iat.pr.gov.br/sites/agua-terra/arquivos_restritos/files/documento/2020-07/mapa_solos.pdf. Acesso em: 17 jan. 2019.

LÖWEN SAHR, C. L.; CUNHA, L. A. G. Sistema faxinal: caboclos entre a idade média e a pós-modernidade. In: Encontro de Geógrafos da América Latina, 10., 2005, São Paulo. Anais [...]. São Paulo: USP, 2005.

MELUCK, L. Informação fornecida ao autor [16 de novembro de 2018]. Faxinal Lageado de Baixo, Mallet – PR, 2018.

SILVA, E. da. Informação fornecida ao autor [16 de novembro de 2018]. Faxinal Lageado dos Mello, Rio Azul – PR, 2018.

SILVA, N. R. da. Etnopedologia e qualidade do solo no Assentamento Roseli Nunes, Piraí-RJ. 2010. 114 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Agroecossistemas) - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2010.

STRACHULSKI, J.; FLORIANI, N. Etnobotânica das plantas indicadoras da qualidade das terras do subsistema faxinalense ‘terras-de-plantar’. In: CARVALHO, S. M.; FLORIANI, N. (org.). Faxinal Taquari dos Ribeiros: diálogos interdisciplinares, sustentabilidade e etnoecologia. Ponta Grossa: Ed. UEPG, 2017.

TRICART, J. L. F. Ecodinâmica. Rio de Janeiro: IBGE, Diretoria Técnica, SUPREN, 1977.

VERDEJO, M. E. Diagnóstico rural participativo: um guia prático. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Agrário / Secretaria de Agricultura Familiar, 2006.

VIERTLER, R. B. et al. Métodos antropológicos como ferramenta para estudos em etnobiologia e etnoecologia. In: AMOROZO, M. C. M.; MING, L. C.; SILVA, S. M. P. (org.). Métodos de coleta e análise de dados em etnobiologia, etnoecologia e disciplinas correlatas. Rio Claro: Unesp/CNPq, 2002.

Publicado
2022-09-16
Como Citar
MARINHESKI, V. Os etnoconhecimentos e as práticas de agricultores faxinalenses como fonte para elaboração de cartilhas e mapas etnopedológicos . Revista Meio Ambiente e Sustentabilidade, v. 11, n. 22, p. 56-71, 16 set. 2022.
Seção
Artigo