A PERCEPÇÃO DE PESSOAS SURDAS SOBRE OS DESAFIOS DA RECEPÇÃO MIDIÁTICA NA AUSÊNCIA DE ACESSIBILIDADE

Autores

DOI:

https://doi.org/10.22169/ruc.v13i22.1040

Resumo

Este artigo tem como objetivo compreender a percepção de pessoas surdas em relação à acessibilidade nos meios de comunicação e como isso interfere nas condições de recepção e produção de sentido. O estudo contempla a aplicação de questionário com pessoas surdas. Os resultados foram interpretados à luz da análise do discurso, com destaque para as contribuições de Eliseo Verón. A percepção dos participantes da pesquisa foi de que, apesar da existência de legislações que decretam a obrigatoriedade dos recursos de acessibilidade em toda a programação televisiva e nos portais do governo; apesar dos avanços tecnológicos que poderiam contribuir com a democratização da acessibilidade, as iniciativas são raras e as pessoas com deficiência auditiva permanecem excluídas do discurso e do processo comunicacional. Diante das demandas das pessoas surdas e dessa ausência de iniciativas da mídia tradicional, o Instituto Nacional de Educação de Surdos criou em 2013 a TV INES, uma webTV acessível para surdos e ouvintes. No entanto, em 2021 a TV encerrou suas atividades por falta de verba e a comunidade se viu novamente sem acesso à informação através dos meios de comunicação. Os participantes da pesquisa demonstraram que a TV INES era a única emissora acessível e que combatia os estereótipos a partir da representatividade e de um discurso para a diversidade. As questões levantadas no questionário foram reveladoras de produção de sentidos. E esses sentidos são marcados pela exclusão, negação de realidade e de cidadania, que são fomentados pela visão e construção de um capacitismo operante.

Palavras-chave: mediatização; recepção; produção de sentidos; surdos; TV INES.

Resumen

Este artículo pretende comprender la percepción de las personas sordas en relación con la accesibilidad en los medios y cómo esto interfiere en las condiciones de recepción y producción de significado. El estudio incluye la aplicación de un cuestionario a personas sordas. Los resultados se interpretaron a la luz del análisis del discurso, con énfasis en las contribuciones de Eliseo Verón. La percepción de los participantes en la investigación era que, a pesar de la existencia de legislación que establece las funciones obligatorias de accesibilidad en toda la programación televisiva y en los portales gubernamentales; A pesar de los avances tecnológicos que podrían contribuir a la democratización de la accesibilidad, las iniciativas son escasas y las personas con discapacidad auditiva siguen excluidas del discurso y del proceso de comunicación. Ante las demandas de las personas sordas y esta ausencia de iniciativas de medios tradicionales, el Instituto Nacional para la Educación de Sordos creó en 2013 TV INES, una webTV accesible para sordos y oyentes. Sin embargo, en 2021 la televisión cerró sus emisiones por falta de fondos y la comunidad volvió a quedarse sin acceso a la información a través de los medios. Los participantes de la investigación demostraron que TV INES era la única emisora accesible y que combatía estereotipos basados en la representatividad y un discurso a favor de la diversidad. Las preguntas planteadas en el cuestionario revelaron la producción de significados. Y estos significados se caracterizan por la exclusión, la negación de la realidad y la ciudadanía, que se fomentan mediante la visión y construcción de un capacitismo operativo.

Palabras clave: cobertura mediática; recepción; producción de significados; sordo; INES TV.

Abstract

This article aims to understand the perception of deaf people in relation to accessibility in the media and how this interferes with the conditions of reception and production of meaning. The study includes the application of a questionnaire with deaf people. The results were interpreted in the light of discourse analysis, with emphasis on the contributions of Eliseo Verón. The perception of the research participants was that, despite the existence of legislation decreeing that accessibility resources are compulsory in all television programming and government portals, and despite technological advances that could contribute to the democratization of accessibility, initiatives are rare and people with hearing disabilities remain excluded from the discourse and the communication process. Faced with the demands of deaf people and this lack of traditional media initiatives, in 2013 the National Institute for Deaf Education created TV INES, a webTV accessible to both deaf and hearing people. However, in 2021 the TV ceased its activities due to lack of funding and the community once again found itself without access to information through the media. The participants in the survey showed that TV INES was the only accessible broadcaster that combated stereotypes through representativeness and a discourse on diversity. The questions raised in the questionnaire revealed the production of meanings. And these meanings are marked by exclusion, denial of reality and citizenship, which are fostered by the vision and construction of a working ableism.

Keywords: mediatization; reception; production of meanings; deaf people; TV INES.

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Biografia do Autor

Giovandro Marcus Ferreira, UFBA

Professor Titular da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, na qual integra o corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas; coordena o Centro de Estudo e Pesquisa em Análise do Discurso e Mídia (CEPAD) e o Centro de Estudo em Comunicação, Democracia e Cidadania (CCDC). Pesquisador com Bolsa PDE-CNPq (2022-2023) e com Bolsa Produtividade do CNPq (PQ).

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Publicado

20-02-2026

Como Citar

REIS, J. L. B.; FERREIRA, G. M. A PERCEPÇÃO DE PESSOAS SURDAS SOBRE OS DESAFIOS DA RECEPÇÃO MIDIÁTICA NA AUSÊNCIA DE ACESSIBILIDADE. Revista UNINTER de Comunicação, [S. l.], v. 13, n. 22, p. 83–101, 2026. DOI: 10.22169/ruc.v13i22.1040. Disponível em: https://www.revistasuninter.com/revistacomunicacao/index.php/revista/article/view/1040. Acesso em: 25 jun. 2026.

Edição

Seção

Artigos