TÁTICAS INVISÍVEIS E FALAS BLOQUEADAS: UM ENCONTRO ENTRE CERTEAU E HABERMAS NO CINEMA
DOI:
https://doi.org/10.22169/ruc.v13i22.1066Resumo
Esta resenha traz a análise do filme Inside Llewyn Davis (2013), dos irmãos Coen, como metáfora para discutir práticas cotidianas e comunicação em contextos de dominação, articulando as teorias de Michel de Certeau e Jurgen Habermas. Certeau propõe uma epistemologia das práticas ordinárias, valorizando táticas silenciosas de resistência que se manifestam no cotidiano, enquanto Habermas apresenta a Teoria do Agir Comunicativo, centrada na busca por entendimento mútuo e emancipação por meio da linguagem. O protagonista Llewyn Davis encarna o sujeito certeauniano, que resiste sem romper com o sistema, reinventando formas de existir à margem. Ao mesmo tempo, sua tentativa de comunicação autêntica é frustrada pela lógica instrumental dominante, evidenciando o bloqueio das pretensões de validez propostas por Habermas: verdade, sinceridade, retidão e inteligibilidade. A análise mostra que, embora partam de pressupostos distintos, Certeau e Habermas oferecem perspectivas complementares para compreender como sujeitos comuns negociam sentido e poder no cotidiano. O filme revela que, mesmo diante da colonização do “mundo da vida” pelo “mundo sistêmico”, há espaço para resistência simbólica e produção de sentido. A estética melancólica e os gestos banais do protagonista reforçam essa dimensão. Conclui-se que Inside Llewyn Davis é uma balada da dignidade e da persistência, onde práticas não discursivas e linguagem não hegemônica se tornam formas legítimas de comunicação e resistência.
Palavras-chave: comunicação; cotidiano; resistência simbólica; teoria do agir comunicativo
Abstract
This review presents an analysis of the film Inside Llewyn Davis (2013), by the Coen brothers, as a metaphor for discussing everyday practices and communication in contexts of domination, articulating the theories of Michel de Certeau and Jürgen Habermas. Certeau proposes an epistemology of ordinary practices, valuing silent tactics of resistance that manifest in daily life, while Habermas presents the Theory of Communicative Action, centered on the pursuit of mutual understanding and emancipation through language. The protagonist Llewyn Davis embodies the Certeaunian subject, who resists without breaking with the system, reinventing ways of existing on the margins. At the same time, his attempt at authentic communication is frustrated by the dominant instrumental logic, revealing the blockage of the validity claims proposed by Habermas: truth, sincerity, rightness, and intelligibility. The analysis shows that, although they start from different premises, Certeau and Habermas offer complementary perspectives for understanding how ordinary subjects negotiate meaning and power in everyday life. The film reveals that, even in the face of the colonization of the “lifeworld” by the “system world,” there is room for symbolic resistance and the production of meaning. The melancholic aesthetics and the protagonist’s banal gestures reinforce this dimension. It is concluded that Inside Llewyn Davis is a ballad of dignity and persistence, in which non-discursive practices and non-hegemonic language become legitimate forms of communication and resistance.
Keywords: communication; everyday life; symbolic resistance; theory of communicative action
Resumen
Esta reseña presenta un análisis de la película Inside Llewyn Davis (2013), de los hermanos Coen, como metáfora para discutir las prácticas cotidianas y la comunicación en contextos de dominación, articulando las teorías de Michel de Certeau y Jürgen Habermas. Certeau propone una epistemología de las prácticas ordinarias, valorizando tácticas silenciosas de resistencia que se manifiestan en el día a día, mientras que Habermas presenta la Teoría de la Acción Comunicativa, centrada en la búsqueda del entendimiento mutuo y la emancipación a través del lenguaje. El protagonista, Llewyn Davis, encarna al sujeto certeauniano, que resiste sin romper con el sistema, reinventando formas de existir en los márgenes. Al mismo tiempo, su intento de comunicación auténtica es frustrado por la lógica instrumental dominante, evidenciando el bloqueo de las pretensiones de validez propuestas por Habermas: verdad, sinceridad, rectitud e inteligibilidad. El análisis muestra que, aunque parten de supuestos distintos, Certeau y Habermas ofrecen perspectivas complementarias para comprender cómo los sujetos comunes negocian sentido y poder en la vida cotidiana. La película revela que, incluso ante la colonización del “mundo de la vida” por el “mundo sistémico”, existe espacio para la resistencia simbólica y la producción de sentido. La estética melancólica y los gestos banales del protagonista refuerzan esta dimensión. Se concluye que Inside Llewyn Davis es una balada de la dignidad y la persistencia, donde las prácticas no discursivas y el lenguaje no hegemónico se convierten en formas legítimas de comunicación y resistencia.
Palabras clave: comunicación; vida cotidiana; resistencia simbólica; teoría de la acción comunicativa.
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Referências
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